Brasil registra menor taxa de assassinatos em mais de uma década, mas desigualdade entre estados preocupa especialistas em segurança pública
O Brasil registrou uma redução importante no número de homicídios em 2024, alcançando o menor índice dos últimos 11 anos. Apesar do avanço, os dados mostram um país marcado por profundas diferenças regionais quando o assunto é violência. Enquanto alguns estados apresentam taxas alarmantes de assassinatos, outros já vivem uma realidade muito mais segura.
As informações fazem parte do Atlas da Violência 2026, levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), considerado uma das principais referências nacionais para análise da criminalidade.
Segundo o estudo, o país teve taxa de 20,1 homicídios por 100 mil habitantes em 2024, número inferior ao registrado nos anos anteriores e que reforça uma tendência de desaceleração da violência letal em algumas regiões brasileiras.
Mesmo assim, especialistas alertam: o cenário ainda está longe de ser confortável. Em estados como Amapá e Bahia, os índices seguem muito acima da média nacional, enquanto regiões como São Paulo e Santa Catarina apresentam números comparáveis aos de países mais seguros.
Brasil registra menor taxa de homicídios em 11 anos
De acordo com o Atlas da Violência, o Brasil contabilizou oficialmente 42.590 homicídios em 2024. O dado representa uma redução de 7,4% em relação a 2023, consolidando o menor patamar de mortes violentas desde 2013.
Na prática, isso significa que, para cada grupo de 100 mil habitantes, cerca de 20 pessoas foram vítimas de homicídio ao longo do ano.
Embora o número ainda seja considerado alto quando comparado a padrões internacionais, especialistas observam que a redução indica mudanças importantes em dinâmicas criminais e políticas de segurança pública.
O levantamento sugere que fatores como reorganização do narcotráfico, transformações demográficas e novas estratégias estaduais de combate ao crime podem ter contribuído para a desaceleração da violência.
Veja quais são os estados mais violentos do Brasil
Os dados do Atlas mostram que 18 unidades da federação registraram taxas de homicídios acima da média nacional, revelando que a violência permanece concentrada em determinadas regiões do país.
O estado com a pior situação foi o Amapá, que registrou 45,7 homicídios por 100 mil habitantes, mais do que o dobro da média nacional.
Na sequência aparecem estados historicamente afetados por conflitos ligados ao crime organizado, tráfico de drogas e disputas territoriais.
Estados com maiores taxas de homicídio em 2024
- Amapá — 45,7 homicídios por 100 mil habitantes
- Bahia — 40,9
- Pernambuco — 37,3
- Alagoas — 35,9
- Ceará — 34,3
- Amazonas — 32,2
- Maranhão — 31,1
- Rondônia — 30,3
- Mato Grosso — 29,1
- Roraima — 27,8
Os números reforçam a preocupação especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde disputas entre facções criminosas continuam exercendo forte influência nos indicadores de violência.
São Paulo lidera ranking dos estados menos violentos
No outro extremo do levantamento aparece São Paulo, que registrou 6,6 homicídios por 100 mil habitantes, a menor taxa do país.
O número equivale a aproximadamente um terço da média nacional e posiciona o estado em um cenário comparável ao de países com níveis mais baixos de violência.
Além de São Paulo, outros estados também se destacaram pelos baixos índices.
Estados com menores taxas de homicídio no Brasil
- São Paulo — 6,6 homicídios por 100 mil habitantes
- Santa Catarina — 8,1
- Distrito Federal — 10,3
- Minas Gerais — 12,8
- Rio Grande do Sul — 15,2
Especialistas atribuem esses resultados a fatores como investimentos contínuos em inteligência policial, integração entre forças de segurança, monitoramento criminal e estratégias mais consistentes de prevenção.
O que explica a queda dos homicídios no Brasil?
Uma das principais explicações apontadas pelo Atlas da Violência envolve uma espécie de “acomodação” nas guerras entre facções criminosas.
Segundo Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e coordenador do estudo, o auge dos confrontos ligados ao narcotráfico ocorreu entre 2016 e 2017, período marcado por intensos conflitos envolvendo principalmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Na época, disputas pelo controle das rotas do tráfico de drogas provocaram explosões nos índices de homicídios, sobretudo no Norte e Nordeste do país.
Com o passar dos anos, no entanto, essas disputas passaram por uma reorganização.
De acordo com Cerqueira, guerras prolongadas geram altos custos financeiros para organizações criminosas e tendem a entrar em fases de estabilidade, o que pode contribuir para a redução da violência letal.
Outro aspecto importante citado pelos pesquisadores é a melhoria qualitativa na gestão da segurança pública em alguns estados, além de mudanças no perfil demográfico brasileiro.
A combinação desses fatores ajudaria a explicar a redução observada nos homicídios desde 2018.
A violência pode ser maior do que mostram os dados oficiais
Apesar dos números indicarem uma melhora, os próprios pesquisadores fazem um alerta importante: os dados reais podem ser ainda mais preocupantes.
Isso porque houve crescimento das chamadas Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) — registros em que não é possível identificar oficialmente se a morte ocorreu por homicídio, acidente ou suicídio.
Ao recalcular os números incluindo os chamados homicídios ocultos, o Atlas estima que o Brasil pode ter registrado 49.673 homicídios em 2024, elevando a taxa para 23,4 mortes por 100 mil habitantes.
Nesse cenário ampliado, a redução em relação ao ano anterior cairia drasticamente: em vez de 7,4%, a queda seria de apenas 0,4%.
Ou seja, embora exista melhora nos indicadores oficiais, especialistas alertam que parte da violência pode continuar invisível nas estatísticas.
O retrato da violência no Brasil ainda preocupa
Mesmo diante da redução dos homicídios, o Atlas da Violência 2026 mostra que o Brasil continua convivendo com um problema estrutural de segurança pública.
A diferença entre estados evidencia que não existe uma única realidade nacional. Enquanto algumas regiões avançam no controle da criminalidade, outras seguem enfrentando desafios graves relacionados ao tráfico, desigualdade social, fragilidade institucional e expansão das facções criminosas.
A queda nos homicídios representa uma notícia positiva, mas ainda insuficiente para afastar a preocupação.
O principal desafio agora será transformar essa redução em uma tendência sustentável, evitando novos ciclos de violência e fortalecendo políticas públicas capazes de reduzir desigualdades regionais.
Para especialistas, segurança pública exige continuidade, planejamento e integração entre governos, inteligência policial e políticas sociais.
O Brasil pode estar vivendo uma melhora nos números, mas ainda enfrenta um longo caminho para reduzir de forma consistente os níveis de violência.
Matéria produzida com base em informações do G1.


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