Por que o narcisista se faz de vítima? - A inversão de responsabilidade como mecanismo de autoproteção
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A inversão de responsabilidade como mecanismo de autoproteção psíquica e manipulação emocional nas relações abusivas
Introdução: Narcisismo, vitimização e poder psicológico
O comportamento do indivíduo com traços narcisistas tem sido amplamente estudado pela Psicologia Clínica e pela Psicanálise, especialmente quando se trata de suas estratégias defensivas diante de críticas, frustrações ou ameaças à autoimagem. Uma das estratégias mais recorrentes é o fenômeno da autovitimização: o narcisista se coloca no papel de vítima como forma de autoproteção psíquica e manutenção de controle sobre o outro. Essa dinâmica não ocorre de maneira ingênua ou casual, mas está profundamente relacionada à estrutura da personalidade narcisista e aos mecanismos de defesa que sustentam sua identidade.
A autovitimização funciona como um escudo emocional. Ao inverter papéis, o narcisista evita assumir responsabilidade por seus comportamentos e desloca a culpa para a pessoa que o confronta. Trata-se do que a literatura psicológica denomina inversão de responsabilidade, um mecanismo defensivo que preserva a autoimagem grandiosa e impede o contato com sentimentos de inadequação, vergonha ou fracasso.
Segundo Freud (1923), os mecanismos de defesa são estratégias inconscientes utilizadas pelo ego para lidar com conflitos internos. No caso do narcisismo patológico, essas defesas assumem formas mais rígidas e manipulativas, uma vez que a estrutura do self é frágil e depende intensamente da validação externa.
Narcisismo: bases conceituais e estrutura psíquica
O conceito de narcisismo foi introduzido por Freud (1914) em “Sobre o narcisismo: uma introdução”, onde descreve o investimento libidinal voltado para o próprio ego. Embora o narcisismo seja parte do desenvolvimento humano saudável, ele se torna problemático quando assume caráter rígido e defensivo, configurando o que atualmente é descrito como Transtorno de Personalidade Narcisista no DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).
Kernberg (1975) aprofunda essa compreensão ao afirmar que o narcisismo patológico está associado a uma organização borderline da personalidade, marcada por sentimentos intensos de vazio, necessidade constante de admiração e incapacidade de tolerar frustrações. Quando confrontado, o narcisista não experimenta apenas um desconforto comum, mas uma ameaça existencial à sua identidade idealizada.
Kohut (1971), por sua vez, destaca que o narcisista depende da validação externa para sustentar seu self. Quando essa validação falha, ocorre uma “ferida narcísica”, desencadeando reações defensivas intensas, entre elas a autovitimização.
A inversão de responsabilidade como mecanismo de defesa
Um dos aspectos centrais do comportamento narcisista é a dificuldade de assumir responsabilidade por falhas ou erros. Ao ser confrontado, o narcisista frequentemente reage com dramatização, distorção de fatos ou acusações dirigidas à própria vítima. Esse processo psicológico é conhecido como inversão de responsabilidade.
Segundo Beck et al. (2004), indivíduos com traços narcisistas tendem a reinterpretar situações de modo a proteger sua autoestima. Em vez de reconhecer um erro, reinterpretam o evento como perseguição, injustiça ou ataque pessoal. Essa reformulação cognitiva cria uma narrativa na qual o narcisista se apresenta como injustiçado.
A inversão de responsabilidade não é apenas um comportamento consciente de manipulação; muitas vezes, ela opera em nível inconsciente. O ego precisa preservar a coerência da autoimagem grandiosa. Admitir culpa implicaria reconhecer imperfeição, algo intolerável para essa estrutura psíquica.
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A dramatização como estratégia de confusão emocional
Quando confrontado, o narcisista pode reagir com intensa dramatização emocional. Ele eleva o tom, distorce fatos, chora, acusa ou cria narrativas paralelas que deslocam o foco da discussão. O objetivo — ainda que inconsciente — é gerar confusão emocional na vítima.
Essa estratégia é frequentemente associada ao fenômeno conhecido como gaslighting, termo derivado da peça “Gas Light” (1938), em que um personagem manipula a percepção da realidade de outro. Embora o termo tenha se popularizado recentemente, o fenômeno psicológico é amplamente reconhecido na literatura sobre abuso emocional.
De acordo com Hirigoyen (2002), a manipulação psicológica visa fragilizar a percepção da vítima, levando-a a duvidar de si mesma. Quando o narcisista se coloca como vítima, ele desloca a culpa e transforma o agressor em ofendido. A vítima, então, passa a questionar sua própria interpretação dos fatos.
A preservação da autoimagem grandiosa
A autoimagem do narcisista é sustentada por uma estrutura idealizada. Ele precisa se perceber como superior, correto, admirável ou injustiçado. Essa necessidade constante de grandiosidade impede o reconhecimento de falhas. Quando surge uma crítica, a estrutura psíquica reage como se estivesse diante de uma ameaça à própria identidade.
Segundo Kohut (1977), a ferida narcísica gera reações desproporcionais porque toca em núcleos profundos de insegurança. Assim, ao se fazer de vítima, o narcisista restaura simbolicamente sua posição de superioridade moral. Ele passa de agressor a injustiçado, recuperando o controle da narrativa.
Essa inversão também reforça sua posição de poder na relação. Ao se colocar como vítima, ele obriga o outro a assumir o papel de culpado, criando um ciclo de culpa e submissão.
Frustração e intolerância à crítica
A dificuldade de lidar com frustrações é uma das marcas centrais do narcisismo. Diferentemente de indivíduos com autoestima estável, o narcisista experimenta críticas como ataques pessoais devastadores.
Millon (2011) descreve que personalidades narcisistas apresentam baixa tolerância à frustração e forte tendência à externalização da culpa. Em vez de refletir sobre a crítica, o narcisista projeta no outro a responsabilidade pelo conflito. Esse mecanismo reduz temporariamente a ansiedade interna, mas perpetua padrões abusivos.
Impactos psicológicos na vítima
A vítima de um narcisista frequentemente experimenta confusão, culpa e insegurança emocional. Ao ser constantemente acusada ou responsabilizada, começa a duvidar de sua própria percepção. Essa dinâmica gera desgaste psicológico significativo.
Segundo Walker (1979), no contexto de relacionamentos abusivos, a inversão de papéis é uma estratégia recorrente que mantém o ciclo de abuso. A vítima se sente responsável por reparar danos que não causou, enquanto o agressor se apresenta como fragilizado.
Esse padrão pode levar a sintomas de ansiedade, depressão e perda de autoestima, especialmente quando a vítima permanece por longo período na relação.
O controle como objetivo central
Embora nem sempre seja plenamente consciente, o objetivo central da autovitimização narcisista é manter controle. O controle pode ser emocional, financeiro, social ou psicológico. Ao se fazer de vítima, o narcisista mobiliza empatia, culpa e medo no outro.
Esse mecanismo é particularmente eficaz em relações afetivas, familiares ou profissionais, onde existe vínculo emocional prévio. A vítima, desejando reparar o sofrimento aparente do narcisista, acaba cedendo, reforçando o ciclo de manipulação.
Considerações clínicas e possibilidades de intervenção
Do ponto de vista clínico, o tratamento do narcisismo patológico exige abordagem cuidadosa e prolongada. A psicoterapia psicodinâmica e a terapia cognitivo-comportamental apresentam evidências na reestruturação de crenças distorcidas e fortalecimento da tolerância à frustração.
No entanto, é fundamental destacar que mudanças significativas só ocorrem quando há reconhecimento do padrão disfuncional — algo raro em estruturas narcisistas rígidas. Para as vítimas, o processo terapêutico é essencial para reconstrução da autoestima e fortalecimento de limites.
Conclusão: compreender para não se culpar
O narcisista se faz de vítima não por fragilidade genuína, mas como estratégia psíquica de autoproteção e manutenção de controle. A inversão de responsabilidade, a dramatização e a distorção de fatos são mecanismos que preservam sua autoimagem grandiosa e evitam o contato com sentimentos de inadequação.
Compreender essa dinâmica é fundamental para romper ciclos abusivos. A informação psicológica fundamentada permite que vítimas reconheçam padrões manipulativos e recuperem sua autonomia emocional.
Valdivino Alves de Sousa
Psicólogo – CRP 06/198683
📲 Instagram: @profvaldivinosousa
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
BECK, A. T. et al. Terapia cognitiva dos transtornos da personalidade. Porto Alegre: Artmed, 2004.
FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. O ego e o id (1923). In: ______. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
HIRIGOYEN, M. F. Assédio moral: a violência perversa no cotidiano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
KERNBERG, O. Borderline conditions and pathological narcissism. New York: Jason Aronson, 1975.
KOHUT, H. The analysis of the self. New York: International Universities Press, 1971.
MILLON, T. Disorders of personality. New York: Wiley, 2011.
WALKER, L. The battered woman. New York: Harper & Row, 1979.


