Influenciador expõe riscos do vício em jogos online, cobra responsabilidade das plataformas e impulsiona debate nacional sobre proteção digital de crianças e jovens
A nova era das apostas digitais e o alerta que ecoou no Brasil
O crescimento acelerado das plataformas digitais transformou radicalmente o comportamento social, econômico e cultural em todo o mundo. No Brasil, esse cenário ganhou novos contornos com a popularização das apostas online, conhecidas como “bets”, que se tornaram presença constante nas redes sociais, na televisão e em eventos esportivos.
Nesse contexto, a participação do influenciador digital Felipe Bressanim Pereira, popularmente chamado de Felca, no programa Roda Viva trouxe à tona um debate urgente sobre o impacto das apostas digitais na vida de adolescentes brasileiros.
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Durante a entrevista exibida pela TV Cultura, o influenciador destacou que os adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos negativos das apostas digitais. Segundo ele, o vício em jogos online não vem sendo tratado com a gravidade necessária pela sociedade, pelas plataformas digitais e até mesmo por parte dos veículos de comunicação.
Felca argumentou que o ambiente digital atual favorece comportamentos impulsivos e cria uma falsa percepção de sucesso rápido, estimulando jovens a acreditar que é possível obter ganhos financeiros fáceis por meio das apostas. Esse discurso, amplamente disseminado por influenciadores e anúncios publicitários, contribui para a normalização de práticas potencialmente perigosas.
Adolescentes no centro da crise: o grupo mais vulnerável
Um dos pontos centrais abordados durante a entrevista foi a vulnerabilidade dos adolescentes diante da publicidade digital e dos algoritmos das redes sociais. Segundo Felca, jovens em fase de desenvolvimento emocional e psicológico são particularmente suscetíveis à influência de conteúdos repetitivos que prometem ganhos financeiros rápidos e aparentemente acessíveis.
A adolescência é um período marcado pela busca por identidade, pertencimento social e independência financeira. Nesse cenário, a exposição constante a conteúdos relacionados a apostas pode funcionar como um gatilho comportamental. Muitos adolescentes passam a enxergar as apostas como uma forma legítima de renda, ignorando os riscos envolvidos e as possíveis consequências a longo prazo.
Felca destacou que a ludomania — termo técnico que define o vício em jogos — possui uma das maiores taxas de suicídio entre todos os tipos de dependência. Essa informação, ainda pouco discutida em debates públicos, revela a gravidade do problema e a urgência de medidas preventivas mais eficazes.
Assista ao programa completo:
Já está em vigor no Brasil o novo Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), também conhecido como Lei Felca. A medida ganhou força após o influenciador denunciar, em vídeo publicado em agosto do ano passado, perfis nas redes sociais que exploravam a sexualização de menores.
Na edição, o influenciador é questionado sobre a forma como os algoritmos exercem influência sobre os conteúdos, a necessidade de se olhar para outros temas da sociedade e onde são necessárias regras nas redes sociais.
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“Se eu fosse impor uma regra, se tivesse esse poder, a primeira coisa que faria seria impor limites à forma como as bets são propagadas. São extremamente danosas, em um grau que não fazemos ideia”, afirma Felca.
O influenciador destaca que a ludomania, o vício em apostas, possui a maior taxa de suicídio entre todos os vícios, mas que o assunto é retratado na televisão e na internet como algo divertido.
“A sociedade ainda está naquele lugar em que estava com o cigarro, quando não sabíamos exatamente a totalidade dos danos. Estamos nesse mesmo lugar com as apostas. Se eu fosse impor uma regra, eu proibiria a forma como as propagandas de jogos de apostas são feitas. São terríveis e não tratam as apostas com a seriedade que elas exigem", ressalta.
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Para responder a essas e outras perguntas, bancada de entrevistadores será formada por Bruno Lucca, repórter de Cotidiano da Folha de S.Paulo; Daniel Becker, pediatra e colunista do jornal O Globo; Fernanda Campagnucci, diretora-executiva do InternetLab; Iberê Dias, juiz da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJSP; Maria Mello, gerente do Eixo Digital do Instituto Alana; e Renata Cafardo, repórter especial e colunista do Estadão.
Com apresentação de Ernesto Paglia, o Roda Viva é exibido pela TV Cultura às segundas-feiras, a partir das 22h, com transmissão simultânea no YouTube e site da emissora. Os desenhos em tempo real são do cartunista Eduardo Baptistão.
Além disso, o influenciador chamou atenção para o fato de que a ludomania ainda é frequentemente retratada como entretenimento leve, tanto em programas televisivos quanto em conteúdos digitais. Essa abordagem, segundo ele, contribui para minimizar os riscos associados ao comportamento compulsivo e impede que o tema seja tratado como um problema de saúde pública.
Algoritmos e influência digital: quando a tecnologia molda comportamentos
Na prática, isso significa que adolescentes que demonstram curiosidade inicial por conteúdos relacionados a apostas passam a receber recomendações frequentes sobre o mesmo tema. Esse ciclo cria um ambiente digital altamente estimulante e repetitivo, aumentando o risco de desenvolvimento de hábitos compulsivos.
Felca ressaltou que os algoritmos não são neutros. Pelo contrário, eles são projetados para maximizar o tempo de permanência do usuário nas plataformas, favorecendo conteúdos que geram maior engajamento — independentemente do impacto social ou psicológico desses conteúdos.
Esse modelo de negócios, baseado em engajamento e monetização, levanta questionamentos éticos importantes. Até que ponto as plataformas digitais devem ser responsabilizadas pelos conteúdos que promovem? E quais limites devem ser estabelecidos para proteger usuários vulneráveis?
Essas perguntas continuam sendo debatidas por especialistas em tecnologia, educação e saúde mental, que defendem a necessidade de regulamentação mais clara e fiscalização mais rigorosa.
A origem da chamada Lei Felca e o nascimento do ECA Digital
O debate sobre segurança digital ganhou novos contornos após a divulgação de um vídeo publicado por Felca em agosto do ano anterior. Na ocasião, o influenciador denunciou a existência de perfis em redes sociais que exploravam a sexualização de menores, expondo práticas consideradas altamente prejudiciais ao desenvolvimento infantil.
A repercussão nacional do vídeo impulsionou discussões legislativas e mobilizou autoridades públicas, culminando na criação do chamado Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, também conhecido informalmente como “Lei Felca”.
O novo estatuto tem como objetivo estabelecer diretrizes específicas para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Entre suas principais propostas estão:
- Regras mais rígidas para verificação de idade em plataformas digitais
- Responsabilização de empresas por conteúdos nocivos
- Maior controle sobre publicidade direcionada a menores
- Incentivo à educação digital nas escolas
A criação do ECA Digital representa um marco histórico na legislação brasileira, sinalizando uma mudança significativa na forma como o país encara os desafios da era digital.
Publicidade de apostas: uma estratégia que preocupa especialistas
Durante sua participação no programa, Felca foi enfático ao afirmar que, se tivesse poder para implementar uma única regra, ela estaria relacionada à limitação da publicidade de apostas online.
Segundo o influenciador, a forma como esses anúncios são apresentados cria uma narrativa enganosa, sugerindo que as apostas são uma forma segura e lucrativa de entretenimento. Em muitos casos, propagandas exibem influenciadores celebrando ganhos financeiros e exibindo estilos de vida luxuosos, criando uma associação direta entre apostas e sucesso pessoal.
Especialistas em comportamento e saúde mental alertam que esse tipo de publicidade pode estimular expectativas irreais, principalmente entre jovens que ainda não possuem maturidade financeira ou emocional para avaliar riscos.
Felca comparou a atual situação das apostas com o período histórico em que o cigarro era amplamente divulgado sem que seus riscos fossem plenamente conhecidos. Segundo ele, a sociedade ainda está em fase inicial de compreensão dos danos causados pelas apostas digitais.
Essa analogia reforça a ideia de que medidas preventivas devem ser adotadas antes que o problema alcance proporções ainda maiores.
A banalização do vício e o desafio da conscientização pública
Um dos maiores desafios apontados por especialistas é a banalização do vício em apostas. Diferentemente de outras formas de dependência, como álcool ou drogas ilícitas, o jogo online ainda é frequentemente associado a diversão e entretenimento casual.
Essa percepção equivocada dificulta o reconhecimento do problema e atrasa a busca por ajuda especializada. Muitos jovens e adultos só percebem a gravidade do vício quando já enfrentam consequências financeiras e emocionais severas.
Felca destacou que o tratamento do vício em apostas precisa ser abordado com a mesma seriedade dedicada a outras formas de dependência. Isso inclui campanhas de conscientização pública, investimentos em saúde mental e regulamentação adequada do setor.
Ele também enfatizou que a responsabilidade não deve recair apenas sobre os indivíduos, mas também sobre empresas e plataformas que lucram com a disseminação desses conteúdos.
O papel da mídia tradicional e digital no debate sobre apostas
A entrevista exibida no Roda Viva, apresentado por Ernesto Paglia, reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir os desafios relacionados ao ambiente digital.
Entre os participantes estavam profissionais ligados ao jornalismo, medicina, direito e tecnologia, refletindo a complexidade do tema e a necessidade de abordagem multidisciplinar.
A presença de especialistas contribuiu para ampliar o debate e fornecer diferentes perspectivas sobre o impacto das apostas digitais na sociedade.
O programa também destacou a importância da mídia na disseminação de informações confiáveis e na promoção de debates públicos responsáveis. Ao abordar temas sensíveis como vício digital e proteção infantil, veículos de comunicação desempenham papel fundamental na formação de opinião pública e na conscientização coletiva.
Com informações da TV Cultura


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